DIADORIM – DEODORINA: UMA TRAVESSIA SÍGNICA
“Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. Um joão-de-barro cantou. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau-d‘Arco, quase na divisa baiana, com nossa outra metade dos sôcandelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu ia-voava reto para ele...Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas. No senhor me fio.”[1] (p.19). É dessa maneira que o leitor de Grande sertão: veredas, atravésda fala do protagonistaRiobaldo, estabelece o seu primeiro contato com a personagem Diadorim. Duas páginas adiante, no meio dos diversos causos, contados para situar o seu interlocutor no cenário do sertão, o barranqueiro Riobaldo fala de amor e do bem-querer de sua mulher. Nesta passagem, aparece nova referência a Diadorim: “De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina...”[2]. É significativo que esta referência ao amigo Diadorim esteja associada à imagem da neblina., imagem já bastante comentada pelos críticos de João Guimarães Rosa.
À medida que a história vai sendo narrada, os entrecruzamentos do nome de Diadorim vão sendo estabelecidos. No porto do Rio-de-Janeiro, Riobaldo encontra com um menino dessemelhante, que “não dava minúcia de pessoa outra nenhuma”[3]. A necessidade de entender e decifrar o encontro com o menino está expressa nas indagações de Riobaldo, quando vêm à tona as reminiscências: “Por que foi que eu conheci aquele Menino?” ou “Para que foi que eu tive de atravessar o rio, defronte com o Menino?”[4] Tempos depois, Riobaldo reencontra o Menino, “tão variado e vistoso”, os olhos verdes, compridas pestanas e, neste momento, percebe que “no reencontrando aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família”[5].
Ainda nesta passagem, algumas conexões são estabelecidas: o Menino-Moço se chama Reinaldo. Riobaldo recorda então a cena em que Reinaldo lhe revela o segredo de seu nome: “ – Riobaldo, pois tem um particular que eu careço de contar a você, e que esconder mais não posso... Escuta: eu não me chamo Reinaldo, de verdade. Este é nome apelativo, inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar por quê. Tenho meus fados A vida da gente faz sete voltas – se diz. Vida nem é da gente...” /.../ “Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim... Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve me chamar, digo e peço, Riobaldo...”[6] e Riobaldo imediatamente ratifica: “– logo eu disse: – ‘Diadorim. Diadorim’ - com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava”[7].
A longa fala/texto de Riobaldo através das veredas do Grande sertão transcorrerá, por um lado, preservando o segredo do nome de Diadorim, e, por outro lado, tentando decifrá-lo. Somente no final da narrativa, o leitor ficará sabendo que Diadorim, o Menino, o Moço, o Menino-Moço, Reinaldo, chama-se também Deodorina, ou melhor, “Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor”[8].
Em Grande sertão: veredas, a principal tarefa de Riobaldo perante o senhor/inter-locutor é interpretar e decifrar o seu passado. À medida que ele tece as relações entre a vida vivida e a vida narrada, ele constrói a trama entre o viver e o aprender a viver, enquanto tarefa interpretativa. A busca de conhecimento passa pela decifração das forças que atuaram em diversos momentos da vida vivida e pelo desvelamento dos signos que escreveram a vida, recuperando-os através da memória, processo no qual uma das principais perguntas que sustenta a fala de Riobaldo é: “Quem era assim para mim Diadorim?”[9].
No espaço de Grande sertão: veredas, Diadorim é o mais prodigioso emissor de signos: cobertos, encobertos, velados, desvelados. Por isso, como a neblina, ele turva o olhar de Riobaldo. É, por excelência, um signo ambíguo, que encorpa em si as qualidades mais paradoxais, antagônicas, plurais e singulares. Corpo de mulher travestido de homem, é quem propicia a dramatização biográfica de Riobaldo e a encenação dos demais signos. Se é a chegada do senhor que deflagra a cena do diálogo-monólogo de Riobaldo, é Diadorim que a sustenta e a fundamenta. Riobaldo não pode falar sobre o sertão sem atravessar este corpo polimorfo e polissêmico, pois seus rastros estão inscritos na geografia física, social, cultural e mítica do sertão, recuperados pelas reminiscências de Riobaldo. Desde a pluralidade de significantes que se instala no processo de nomeação desta personagem inominável – o Menino, o Moço, o Menino-Moço, Reinaldo, Diadorim, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – até a entrada e saída das demais personagens do cenário lingüístico, todos os signos são recortados e contornados pelo feixe de palavras que entrelaçam situações, acontecimentos, conflitos, paixões e sentimentos por Diadorim.
Cada um dos nomes da personagem evoca um momento preciso, uma região particular, um detalhamento de uma zona topográfica, um acidente geográfico, capturados através da interligação do objeto do desejo que se derrama, se espalha, invade o espaço do sertão – físico, geográfico, subjetivo e íntimo do narrador. É Diadorim quem mobiliza o processo de desterritorialização e territorialização geográfica e subjetiva de Riobaldo. É quem força de maneira mais poderosa o processo de decifração, e que exige Riobaldo se inventar no “gosto de especular idéia”. Em cada momento, situação, acontecimento, os signos emitidos por Diadorim – voz, olhar, rosto, mãos, gestos, ações, sussurros, silêncios – imprimem na fala/texto de Riobaldo modulações distintas, pulsações lentas e aceleradas, ritmos sonantes e dissonantes, ecos do passado que irrompem e invadem a fala/escritura, receptáculo que se insemina, e dissemina as pulsões eróticas do narrador. “E ainda hoje, o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu cabelo branco que o senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo – sem traslado...”[10]
Desde o primeiro encontro com o Menino, no porto do de-Janeiro, a vida de Riobaldo é traçada pelo imponderável e é atravessada por uma trama sígnica que o força a decifrar, a conhecer, pela marca da estranheza e da diferença que permeia seu olhar. É por isso que Diadorim é, também, um nome constelar, plurissignificativo em sua fisicalidade, que irradia um feixe de reverberações semânticas, traduzindo uma realidade vivida subjetivamente por Riobaldo: realidade sentimental, ambivalente e conflituosa.
Diadorim contracena com Reinaldo, signo masculino que reveste a feminilidade expressa ambiguamente pelo significante Diadorim: “O Reinaldo era Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu”[11]. Se o Menino e o Moço mapeiam a região de uma história que se anuncia e já prenuncia uma ambivalência, que atravessará todas as aventuras do jagunço Riobaldo, Diadorim e Reinaldo afirmam uma dualidade vivida conflituosamente, ao nível da realidade subjetiva e objetiva. É por causa de Diadorim que Riobaldo entra para a vida de jagunço e esta circunstância histórica, objetiva, tem repercussões importantes do ponto de vista da sua constituição como sujeito histórico.
A travessia riobaldiana traspassa, simultaneamente, o corpo sígnico de Reinaldo-Diadorim, em torno do qual gira a constelação dos signos da vida. Na sua ambivalência constitutiva, Diadorim faz parte da constelação amorosa de Riobaldo, contracenando com Nhorinhá e Otacília, etapas diferentes de um mesmo impulso erótico. Mas no nome de Diadorim transbordam as marcas de uma realidade que, além de ser vivida subjetivamente no plano do interdito, deixa também seu rastro no desempenho do jagunço Riobaldo. É através de Diadorim que Riobaldo esbarra na malignidade do homem humano, como também descobre seu lado contemplativo, apreciador das belezas da natureza por puro deleite e prazer.
Diadorim recobre, por sua vez, a feminilidade de Maria Deodorina, nome no qual se inscreve o vivível e que traz para o espaço de Grande sertão: veredas uma outra cena da história vivida subjetivamente por Riobaldo. Com a morte, o momento de desvelamento do corpo feminino de Diadorim lança o protagonista, bem como o leitor, em uma realidade imaginária, onde as ruínas da história vivida se misturam com as possibilidades da história vivível, não acontecida, que poderia ter sido e não foi. Nesta superposição de realidades e potencialidades perdidas, todos os nomes se tornam insuficientes e precários para chamar Diadorim. Todos expressam fragmentos de uma história estilhaçada, de um eu plural, mas nenhum deles é suficiente para expressar a plenitude da dor e do sentimento amoroso do jagunço Riobaldo. Diante do inerte corpo feminino, somente uma exclamação revela plenamente o inominável: “– Meu amor!...”[12]
Se Diadorim é o mais prodigioso emissor de signos na experiência de Riobaldo, este é o mais poderoso tradutor e decodificador dessa teia/neblina que turva sua visão, pela superabundância de significantes e de significados com que se entrelaça. Mas a sua capacidade de decodificar, de destecer o emaranhado de fios urdidos pela trama de suas relações com Diadorim, corresponde à sua capacidade de organizar, reordenar, retecer esses fios na sua fala/escritura, tornando-se, conseqüentemente, a mais possante usina produtora de sentido.
Gilles Deleuze, em Proust e os signos, considera A la recherche du temps perducomo o livro de um aprendizado, de uma busca da verdade, definindo aprender como “considerar uma matéria, um objeto, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados”.[13] Nessa perspectiva, assinala que a obra de Marcel Proust não está baseada na exposição da memória, mas no aprendizado dos signos, que é uma atividade de decifração, já que tudo que ensina emite signos e todo aprendizado é uma interpretação. Por isso é que, no dizer de Deleuze, todo aprendiz é um “egiptólogo”. Se existe uma pluralidade de formas de aprendizagem, de qualquer forma que se aprenda, é sempre por intermédio dos signos, que forçam a pensar. Deleuze define o ato de pensar não como decorrência “de uma simples possibilidade natural”, mas como relacionada à atividade interpretativa: “Pensar é sempre interpretar, isto é, explicar, desenvolver, decifrar, traduzir um signo”[14]. Sem algo que force a pensar, sem algo que violente o pensamento, este nada significa, pois mais importante que o pensamento é o que “dá o que pensar”. Por isso, conclui Deleuze, o “leitmotiv do Tempo redescoberto é a palavra forçar: impressões que nos forçam a olhar, encontros que nos forçam a interpretar, expressões que nos forçam a pensar”[15].
Desse modo, introduz-se nas reflexões deleuzianas a relação entre lembrar e aprender, pois, os signos sensíveis da memória são os traços da vida, interação estabelecida circularmente por Proust: “aprender é relembrar, mas relembrar nada mais é do que aprender”[16]. E, novamente, essas colocações contornam outros leitmotive da Recherche, que já foram assinalados anteriormente como cerne da problemática riobaldiana: “eu ainda não sabia; eu compreenderia mais tarde”[17]. A recordação é então a faculdade capaz de fazer interpretar os signos: a lembrança, quer seja voluntária ou involuntária, intervém em momentos decisivos do aprendizado.
Os signos mobilizam a procura da verdade nas zonas obscuras em que se penetra “como em criptas, para aí decifrar hieróglifos e linguagens secretas”[18]. Por isso, para Deleuze, a figura do aprendiz, daquele que faz uma iniciação, é a do egiptólogo. Na leitura deleuziana de A la recherche, as personagens adquirem importância à medida que emitem signos a serem decifrados, mas esses têm um sentido sempre implícito, implicado, que deve ser desentranhado dos seus corpos.
São essas considerações que propiciam situar a aprendizagem de Riobaldo como um processo que atravessa o universo dos signos inscritos na memória, acionados pela presença do senhor, mas forçados a uma circulação, a uma mobilização, pela violenta irrupção de impressões e reminiscências que o fazem pensar, decifrar, aprender, conhecer. O gosto de especular idéia do barranqueiro Riobaldo corresponde a essa travessia sígnica em que cada personagem, cada lugar, cada acontecimento, detona, irrompe através de impressões, expressões, encontros, olhares, vozes, gestos, rostos, reminiscências, que são metáforas do vivido em busca de sentido.
Em Grande sertão: veredas, como em A la recherche, o senhor/leitor terá que passar também por essa aventura, e o encontro com cada personagem, cada lugar, cada acontecimento é uma prodigiosa fonte de traços imbricados uns nos outros, emaranhados como hieróglifos a serem decifrados. Nesse processo de identificação, Riobaldo, o senhor e o leitor tornam-se egiptólogos a penetrar em criptas, forçados a uma aventura interpretativa.
O barranqueiro Riobaldo encontra-se envolto em uma tessitura que ele terá que descoser para compreender os percursos labirínticos que impulsionaram as ações do jagunço Riobaldo. A dificuldade que ele encontra para narrar provém da multiplicidade dos signos que encorpam esse tecido e da mobilidade que eles têm ao oscilar entre sentidos de polaridades distintas, possuídos muitas vezes forças contrárias, ficando assim duplamente marcados, o que dificulta a sua decifração.
Por outro lado, observa-se uma superabundância de significantes, e um mesmo objeto ou um mesmo ser é nomeado a partir de uma pluralidade de nomes, dando uma espessura à linguagem que exige um intérprete astucioso para desbastar as diversas camadas superpostas de significação. Esta capacidade de flutuação dos signos está sintetizada na afirmação de Riobaldo de que “tudo é e não é” ou de que “este mundo é muito misturado”. Delineia-se aqui a postura descentrada, desconstrutora, que enforma a linguagem de Grande sertão: veredas, constituindo-se fora das polaridades dicotômicas do pensamento constituído.
A mobilidade dos significantes e dos significados compõe uma constelação de signos que se entrelaçam, promovendo um trasbordamento de símbolos, imagens, valores históricos, sociais, religiosos, filosóficos, éticos, acionados pelos valores estéticos que escrituram a vida de Riobaldo, enquanto tessitura de representações simbólicas. Observa-se, entretanto, a necessidade que tem o narrador de encontrar a palavra precisa, de localizar o sentido mais oculto para desvelar o significado das ações, dos seres, das coisas. O excesso de significantes através dos quais se nomeia um mesmo objeto ou um mesmo ser – como por exemplo o demo – provém da necessidade de se depreender o sentido que se embaralha nesse emaranhado. É como se os signos fossem insuficientes para apreender a coisa em si, e a pluralidade de palavras para nomeá-la fosse a possibilidade de capturá-la na multiplicidade dinâmica.
Se o aprendizado de Riobaldo passa pelo universo dos signos, ele só estará completo, quando chegar a uma compreensão plena da sua existência, quando encontrar aqueles que lhe propiciem nomear o inominável de sua experiência. Enquanto Riobaldo declarar que para “muita coisa importante falta nome”,[19] ele ainda não terá completado sua travessia sígnica, que corresponde à capacidade que tem o sujeito de se nomear através da linguagem, de encontrar para cada percepção, sensação ou reminiscência do vivido os signos que possam corporificá-las e traduzi-las, fornecendo-lhe as respostas para as indagações que ele não foi capaz de compreender no passado. Como enfatiza Riobaldo: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”.[20] Atravessar seus fantasmas – “Atravessei meus fantasmas?”[21] – implica nessa ação de materializar através da linguagem os seus desejos e pulsões, de corporificar as forças que atuaram, mobilizando as ações experienciadas.
Foi por não conhecer essas forças que o jagunço Riobaldo sentia-se como que lançado pelo acaso, empurrado para as ações mais imponderáveis. Explica-se assim a freqüência com que aparece na sua fala o verbo esbarrar e seus derivados. Por não saber pensar com poder – “Ao que, naquele tempo eu não sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder – por isso eu matava”[22] – isto é, por não saber traduzir em signos a trama das forças que o conduziram ao encontro com Diadorim e à vida de jagunço – “de ser sempre jagunço não gostava”,[23] “Diadorim era um impossível”[24] – é que, em tempo de posterioridade, Riobaldo terá que devassar esse mar de território – o território da linguagem – para afastar a neblina que turva sua visão. Se ele diz que “Diadorim é a minha neblina”,[25] é, porque é o signo mais obscuro e mais misterioso de sua vida, e é justamente ele que mais lhe propiciará a busca de si mesmo através da corporificação dos signos que emite. A teia que entrelaça as ações do jagunço Riobaldo pelo sertão converge para a figura de Diadorim, e é a partir dela que ele terá que devassar esse mar de território para mapear as zonas obscuras onde as forças se acumulam, exalando o seu sentido.
Mas a grande aprendizagem de Riobaldo resulta do modo de ser ambíguo de Diadorim, amor impossível, simultaneamente demoníaco e divino. Demoníaco, porque interdito dentro do código moral do jagunço Riobaldo e porque o encontro de Riobaldo com o Menino-Reinaldo-Diadorim é também o encontro com seu outro, com o inominável, é a confrontação com as zonas obscuras e sombrias de sua subjetividade, com seu lado hermogêno.[26] Nesse sentido, como considera Kathrin Rosenfield, Diadorim e Hermógenes se identificam e projetam o lado maligno e cruel da condição humana, infinitamente humana, do jagunço Riobaldo. Divino, porque vital como o sopro da vida que faz vibrar todas as cordas do coração e se irradia pelo sangue e se derrama na fala/texto de Riobaldo, deixando o interlocutor/leitor no mesmo ritmo cardíaco pulsante.
Este movimento constelar, em que se define a busca de uma identidade através dos modos de nomeação do sujeito, traz, para a escritura de Grande sertão: veredas, uma característica que permite refletir sobre o estatuto do signo, segundo a concepção riobaldo-roseana. Encenando o descentramento do sujeito, é como se um único nome – traço que o representa e o presentifica – não fosse suficiente para definir a multiplicidade de faces que constitui um eu, explicitando ainda um aspecto da aventura cognitiva: o caráter interminável e primordial da interpretação de si.[27] Nesse sentido, pode-se observar também os deslocamentos e entrecruzamentos que se efetuam em torno do nome do protagonista Riobaldo.
Diversos nomes agregam-se ou substituem o significante Riobaldo. A carga semântica e simbólica desse nome já foi objeto de diversas leituras, que abordam o papel do nome próprio nos textos de Guimarães Rosa. Riobaldo é um rio baldo, caudaloso, imagem do riocorrente que sustenta e define a própria narrativa. Quando criança, era conhecido como Baldo. Para Zé Bebelo, era Professor, pois se distinguia dos demais jagunços porque sabia ler e escrever. Nas andanças pelo sertão, todavia, nenhum nome se fixa em Riobaldo. O sentido de travessia se fundamenta também nessa mobilidade dos significantes, que traduzem uma transformação, ou uma diferente etapa na jornada desse herói de mil faces. Por ser bom atirador, recebe o nome de Tatarana. Como ele mesmo declara, primeiro Cerzidor, depois Tatarana, que é lagarta-de-fogo, mas é também cobra-voadeira, o que caracteriza a sua bravura. As ramificações onomásticas de Riobaldo ainda perpassam pelo Urutu-Branco, signo que reafirma a sua qualidade de chefe dos jagunços. Cada nome diz de uma força, de uma qualidade, de um valor que se impõe ao protagonista narrador, em uma determinada circunstância existencial. Já no final da narração, antes de introduzir a cena da descrição da batalha do Paredão, Riobaldo restabelece a sua trajetória de jagunço, sintetizando-a a partir dos nomes: “Fui o chefe Urutu-Branco – depois de ser Tatarana e de ter sido o jagunço Riobaldo.”[28]
Esta pluralidade de nomes, esta heteronímia que, aparentemente, revela um percurso linear da história de Riobaldo, superpõe os signos no acontecer da travessia pelo sertão, e é somente no momento de reflexão, leitura e decifração, que ele pode reconstituir a trajetória, ordenando-a como se houvesse um desenvolvimento cronológico, em que um signo substitui o outro. Essa heteronímia, que demonstra o estado e a consciência de uma alteridade, dramatizada com tanta intensidade no Grande sertão: veredas, é um meio através do qual a escritura de João Guimarães Rosa desempenha um papel desconstrutor em relação ao estabelecimento de um sujeito uno, racional e eficiente, que legitima o pensamento constituído e as ideologias que comandam e sustentam o poder estabelecido.
[1] João Guimarães ROSA. Grande sertão: veredas. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. v. 2 p. 19.
[2] Idem, p.21.
[3] Idem, p. 71.
[4] Idem, p. 75.
[5] Idem, p. 93.
[6] Idem, p. 103–104
[7] Idem, p. 104.
[8] Idem, p. 383.
[9] Idem, p. 119.
[10] Idem, p. 296.
[11] Idem, p. 200.
[12] Idem, p. 380.
[13] Gilles DELEUZE. Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. p. 4.
[14] Idem, p. 96.
[15] Idem, p. 95.
[16] Idem, p. 65.
[17] Idem, p. 90.
[18] Idem, p. 91.
[19] ROSA, op. cit. p. 86.
[20] Idem, p. 312.
[21] Idem, p. 365.
[22] Idem, p. 262.
[23] Idem, p. 53.
[24] Idem, p. 37.
[25] Idem, p. 22.
[26] Para o estudo desse aspecto cf. Kathrin ROSENFIELD.Os descaminhos do demo; tradição e ruptura emGrande sertão:veredas. Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: EDUSP, 1993. p. 27-57.
[27] Para a compreensão dessa problemática interpretativa e autobiográfica na obra de Jean-Jacques Rousseau, Cf. Jean STAROBINSKY. Jean-Jacques Rousseau; transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
[28] ROSA, op. cit. p. 345.